sábado, 29 de julho de 2017

Desindividualização ou Consciência de manada

O Equívoco: Pessoas que saqueiam e vandalizam em meio ao caos estavam apenas esperando uma desculpa para roubarem ou serem violentas.

A Verdade: Você é propenso a perder sua individualidade e ser absorvido pela "mente coletiva" dadas condições corretas.

Sempre que uma multidão se cria em torno de qualquer coisa, algo terrível pode ser desencadeado

Em 2001, quando uma mulher de 26 anos ficou à beira de uma ponte de Seattle, considerando a decisão de acabar com a própria vida com um salto, ela não conseguiu fazer isso em paz. Os carros começaram a passar lentamente por ela causando um engarrafamento e conforme o trânsito ficava mais pesado os motoristas, enraivecidos pelo trafego, começaram a gritar para ela "Pule logo, sua puta!". Eventualmente ela pulou.

Casos desse tipo não são incomuns.

 Em 2008, um garoto de 17 anos pulou do topo de uma prédio de estacionamento na Inglaterra após uma multidão de 300 pessoas o desafiarem a isso. Algumas pessoas tiraram fotos e filmaram antes, durante e depois do suicídio do jovem. Depois que a multidão se dissipou foi como se o "feitiço" tivesse acabado. As pessoas se afastaram tentando compreender o que acabara de acontecer, alguns espectadores ventilaram, nas redes sociais, sua indignação pelo que havia acontecido.

Em 2010, São Francisco, um homem ficou na janela de seu apartamento contemplando a altura da queda. O SF Examiner detalhou como uma multidão se reuniu abaixo dele e começou a gritar para que ele pulasse. As pessoas até twitavam sobre isso. O homem morreu na queda 15 minutos depois.
"Eu estava lá e estou traumatizado. Os caras ao meu lado estavam rindo, gritando para pular e gravaram tudo. Eu ainda sou jovem e estou no ensino médio, mas isso é algo que lembrarei para o resto da minha vida. Havia uma total falta de respeito pelo pobre homem e as pessoas estavam rindo quando ele pulou ".
- comentário deixado no SF Examiner
A polícia e os bombeiros estão bem conscientes da tendência das multidões se reunirem em cenas de suicídio em potencial e provocarem o suicida, por isso eles, muitas vezes, isolam o local para as pessoas ficarem a uma distancia segura onde os gritos seriam menos ouvidos, ou possam ser rapidamente abafados. O risco de uma "torcida" espontânea para uma pessoa a se matar é alto quando as pessoas em um grupo se sentem anônimas e/ou estão com raiva ou irritadas. É preciso apenas uma pessoa para conduzir a multidão.

Uno com a multidão

De acordo com o psicólogo David Myers, esses são os três ingredientes necessários para criar uma consciência de manada: anonimato, tamanho do grupo e exaltação. Se você perder o seu senso de si mesmo, sentir o poder de uma multidão, e então ser fisgado por uma sugestão poderosa do meio ambiente - sua individualidade pode evaporar.

Na multidão muitas pessoas conseguem manter seu senso de certo e errado, alguns conseguem manter a compostura. Muitos dos que testemunharam esse tipo de evento se sentiram terríveis sobre o acontecimento e condenaram aqueles que encorajavam os suicidas, não parando por ai e condenando toda a humanidade após ver sua capacidade de fazer tanto mal. O que essas pessoas, assim como os agitadores, não percebiam é que esse comportamento é normal e previsível.

Talvez você ache difícil de acreditar, mas esse comportamento também está dentro de você. Sob as circunstâncias certas você também pode ser um dos que gritam "Pula!". Para entender o porquê vamos dar uma olhada em algumas fantasias.

As máscaras do Dia das Bruxas

O Halloween nos Estados Unidos é um ótimo exemplo de evento em que regras e normas são quebradas à revelia. Fantasias, doces, folia e irreverencia, travessuras, ações e sentimentos ligados ao mal, a morte, e ao sobrenatural - esse é um dia que, definitivamente, as pessoas fogem de seus padrões e regras de comportamento e experimentam uma outra face de si mesmo.

Nos EUA o Dia das Bruxas chega a movimentar 6 bilhões de dólares, e 2 desses bilhões são gastos em fantasias. Em todo o país as pessoas se refugiam no anonimato e se tornam absorvidas por personagens que serão desfeitos no dia seguinte. O Halloween é divertido pois nos retira, por pelo menos um dia, o peso de nossa própria identidade, não importa sua idade. Se fantasiar é algo mágico para uma criança vestida de palhaço que estará buscando por doces, assim como é para um adulto com máscara do Guy Fawkes tomando doses de Tequila.

Fantasias de carnaval

Aqui no Brasil temos um evento que supera o Dia das Bruxas estadunidense: O Carnaval. Em quatro dias de folia os brasileiros se fantasiam, saem em blocos, se divertem, fazem loucuras e, em suma, dão um descanso para suas próprias regras internas sendo arrastados por multidões de foliões que também querem pensar pouco e se divertir muito. No carnaval tudo é permitido.

Sair fantasiado não só chama atenção para o personagem que você veste, mas também para a própria perda da personalidade que você veste no dia a dia. O Carnaval dá oportunidade de brincar com papeis e rótulos usando personagens que todos conhecemos, mas a maior fantasia não é a de pano e sim a personalidade carnavalesca que todos vestem na época, como se fosse um personagem de si mesmo no entanto mais caótico, louco ou, até mesmo, mais real. A máscara que vestimos durante o carnaval não se difere muito das máscaras que usamos no dia a dia, uma para o trabalho, uma para o relacionamento pessoal, outra para a família. Mas a imersão é diferente, o meio é diferente.

As máscaras da nossa vida

Nos já vivemos de baixo de muitas máscaras, na infância, sem controle de nossas escolhas, a personalidade vai se formando a partir de qualquer experiência, acabamos sendo como uma miscelânea das pessoas que conhecemos. Na adolescência começamos a ter mais consciência de nós mesmos e passamos a experimentar diversas máscaras para ver qual delas fica melhor (normalmente a que nos faz ser aceitos em algum grupo). Depois passamos a buscar nossa individualidade, tentamos sair da normalidade moldando nossa opinião sobre determinados temas, mudando nosso corpo através de tatuagens ou vestindo-se de forma diferente. A cada nova fase da vida vamos lapidando nossa personalidade até termos a segurança de que sabemos quem somos.

Depois da personalidade formada e fora o uso de nossas "máscaras" diárias, é no carnaval que temos a liberdade de sair completamente dos padrões e ser o que quisermos junto com todo mundo que conhecemos. De muitas formas é um evento em que experimentamos a perda de nossa individualidade.

O experimento dos doces de Haloween

Foi essa questão que, no final da década de 70, levou um grupo de psicólogos a fazer um estudo controlado da mente humana durante as festas de Halloween nos EUA. Arthur Beaman, Edward Diener e Soren Svanum viajaram para um bairro agradável em Seattle, Washington, e escolheram 27 casas que se tornariam laboratórios improvisados. Os pesquisadores queriam ver se o anonimato dos trajes de Halloween afetaria o comportamento das crianças.

Os cientistas colocaram dentro da entrada de cada casa uma tigela de doce, um espelho e uma decoração festiva de Halloween, na outra sala um cientista observava através de um buraco quando as crianças chegavam e o que faziam.

Uma mulher ficava recepcionando as crianças que chegavam pedindo doces e  falava que cada um poderia pegar um. Depois disso ela se ausentava daquela parte da casa deixando as crianças sozinhas com os doces. Na metade das vezes ela perguntava as crianças os nomes delas e onde elas moravam. Crianças que chegavam com adultos eram omitidas do resultado da pesquisa. A questão era ver se as crianças pegariam mais doces do que deveriam quando um adulto não estivesse em sua presença, afinal, assim elas não teriam que lidar com punição ou desapontamento.

As perguntas principais eram: As crianças reagem de forma diferente quando estão sozinhas ou em grupo? Ao dizer seus próprios nomes isso as lembrariam de sua própria identidade? Ou o seu próprio reflexo no espelho poderia lembrá-los de quem eram?

No fim das contas eles perceberam que o espelho não era um fator determinante. O que fez a maior diferença era se eles tinha ou não dito seus nomes e se eles estavam ou não em grupo.

Se eles tivessem que dizer seu nome e também estavam sozinhos, menos de 10% das crianças burlava a regra pegando mais doces. Quando em um grupo, cerca de 20% daqueles que revelaram sua identidade desobedeceram a regra dos doces. 20% das crianças, que não falaram seus nomes e estavam sozinhas, pegaram mais doces. Em um grupo, cerca de 60% dos anônimos aproveitaram para pegar doces a mais.

Os resultados sugeriram que o poder de seu anonimato foi ampliado na presença de outros. Sem máscaras as transgressões também subiam quando em grupo, mas com as máscaras um número muito maior de crianças pegavam mais doces. As crianças que se sentiram mais anônimas e as mais protegidas pelo anonimato compartilhado do grupo também eram as mais propensas a quebrar as regras e tomar mais doces. Com o anonimato máximo, muitas delas tentaram levar todos os doces que conseguiam carregar.

Este é um dos muitos estudos que revelam que sua identidade pode ser dissolvida na presença de outros, e quanto maior o grupo, mais propenso estamos a sermos mimetizados em prol da vontade coletiva. Saques, tumultos, linchamentos, guerras, perseguição de "monstros" com tochas, histeria coletiva. Todos nos podemos ser atraídos para dentro da manada, faz parte do nosso funcionamento, só é necessário os estímulos certo para nos tornarmos parte de algo maior, seja para o bem, ou para o mal.

O Efeito Manada

Os psicólogos chamam esse fenômeno de desindividualização. Em determinadas situações, você pode esperar ser desindividualizado. Ao contrário do comportamento social normal, em que você adota as idéias e os comportamentos dos outros para aceitação e inclusão, a desindividualização é, principalmente inconsciente, e mais provável que leve a fazer algo ruim. Como Myers disse "você faz junto o que não faria sozinho".

Lembre-se da sua adolescência, quais foram os momentos em você mais arrumou confusão? Provavelmente você estava em grupo e foi seduzido pela vontade de seus pares. Pode ter havido influenciadores, instigadores ou líderes naturais, mas, no final, todos em seu círculo provavelmente se dissolveram na mente da unidade. Quando o diretor, pai ou policial perguntou: "O que vocês estavam pensando?" Você não tinha resposta porque não havia uma. Você estava apenas reagindo, movendo-se como um rebanho.

O experimento de choque

Em 1969, o psicólogo Phillip Zimbardo fazia estudantes universitários darem dolorosos choques elétricos em outras estudantes. Metade dos estudantes que receberam choques foram selecionados aleatoriamente para usar grandes capuzes e jalecos de laboratório durante a experiência, de forma que não dava para saber quem eles eram. A outra metade ficou desmascarada e usava etiquetas revelando seus nomes. Ele disse, aos que seriam torturadores, que estudava criatividade sob o estresse e que uma mulher, do outro lado de um espelho unidirecional, era testada sobre a capacidade dos choques afetarem o desempenho criativo da mesma. As mulheres que estavam "sofrendo" os choques, eram atrizes que fingiam se contorcer de agonia.

Zimbardo certificou-se de que os sujeitos sabiam que iria doer, dando a cada um uma amostra de 75 volts de dor. Além disso, para proporcionar motivação, ele fez com que os sujeitos assistissem uma entrevista gravada com as duas atrizes que seriam "testadas" em que uma parecia amigável e doce, mas a outra parecia rude.

O psicologo não falou para meninas, de máscaras ou sem máscara, quando dar o choque, ou por quanto tempo. Mas deixou claro que elas não precisariam dar o choque se não quisessem. Além disso as meninas do experimentos não podiam conversar entre si. A doutora queria eliminar ao máximo a pressão vinda de autoridade ou por qualquer outro. Os únicos fatores em jogo foram o anonimato e a desindividualização. Em grupos de quatro, os alunos se sentaram e começaram a dar choques nas atrizes.

Em todas as baterias do experimento as mulheres que estavam encapuzadas davam duas vezes mais choque do que as que não usavam capuz. Não importava se a atriz era a legal ou a rude, cada uma delas recebeu duas vezes mais choque das encapuzadas. A cada fase do teste os choques ficavam mais longos e frequentes. Enquanto do outro lado as atrizes fingiam grande agonia.

O anonimato causado pelos capuzes permitiram um comportamento que seria socialmente inaceitável (além de ilegal). Sem o medo de conseqüências, a excitação de ter controle sobre outra pessoa, foi alimentada por si mesma. Como Zimbardo disse, a escalada foi conduzida por um loop de feedback positivo de excitação. Quanto mais davam choques, mais excitadas ficavam. Quanto mais excitadas elas ficavam, mais choques elas davam. Embora ninguém no experimento se absteve de dar choque nas atrizes, aquelas que não estavam mascaradas fizeram uma distinção entre a atriz que "merecia" sua misericórdia e a que não merecia.

Curiosamente, esse mesmo experimento foi conduzido com soldados belgas, e quando eles usavam os capuzes, eles davam menos choques nos atores. No caso, os uniformes que eles usam já promovem a desindividualização, mas os capuzes os isolaram. Entre outros soldados, eles faziam parte de uma unidade, um grupo. Sob o capuz, eles eram uma pessoa novamente (uma pessoa anônima).
"A banalidade do mal compartilha muito com a banalidade do heroísmo. Nenhum atributo é a conseqüência direta de tendências disposicionais únicas; Não há atributos internos especiais de patologia ou bondade que residam na psique ou no genoma humano".
- Phillip Zimbardo de seu livro "The Lucifer Effect"
A agressividade do anonimato

Zimbardo realizou outro experimento e, como os pesquisadores de Seattle, usou o maravilhoso anonimato incorporado do Dia das Bruxas como ferramenta. Ele observou crianças da escola primária jogarem jogos para ganhar cupons, que eles poderiam trocar por prêmios no final. As crianças podiam escolher quais jogos jogar. Alguns jogos eram competitivos, mas não agressivos, enquanto outros eram duelos individuais realmente competitivos.

As crianças jogaram esses jogos em uma festa de Halloween, tanto fantasiados quanto sem fantasia. Na primeira rodada eles jogavam sem fantasias e, quando as fantasias chegaram, as crianças jogavam novamente, mas fantasiados. Uma vez que a competição terminou, os professores disseram que outra turma precisa das fantasias, então eles jogaram mais uma vez sem estarem fantasiados.

A quantidade de tempo que as crianças passaram jogando os jogos agressivos, assim como sua agitação, empurrando e gritando, dobrou quando elas usam os trajes, passando de 42% para 86%. Quando eles tiraram as fantasias novamente, caiu para 36%. Quando estavam disfarçados, sob o feitiço da desindividualização, queriam ir de frente-a-frente e lutar, mesmo que esses jogos demorassem e rendessem menos cupons. Assim que os figurinos foram removidos, eles voltaram para um comportamento mais social.

Monstros internos?

Todas as vezes que você está com um grupo de pessoas, ou está usando uma máscara, você corre o risco da desindividualização que, muitas vezes, revela sua parte mais perversa. Quando você está visível você age como se sua reputação ou posição social estivem em jogo, portanto age de forma mais social. Quando você não tem identidade, quando você não é identificado, e está livre de represálias, as cadeias de inibição do seu cérebro são suprimidas.

Como você agiria se seus inibidores internos fossem suprimidos? Gostaria de gritar para alguém para saltar à morte enquanto tira fotos e twita sobre isso?

Imagino que nesse momento você pense que não há como você fazer tal atrocidade, mas nesse momento você é um indivíduo com cadeias sociais que equilibram tanto o mal mais sombrio quanto a bondade do seu coração. Você não pode realmente prever o que aconteceria se os três ingredientes da desindividualização fossem acionados - anonimato, tamanho do grupo e exaltação.

A exaltação pode ser causada por um discurso forte, por um show que te cause catarse, em uma multidão alegre ou raivosa, ou qualquer coisa que realmente chame sua atenção e acabe por te fisgar. Cantar, dançar e outras atividades rituais e repetitivas em grupo são particularmente eficazes para capturar nossa atenção e distrair-nos dos limites de nosso corpo ou mente.

Seu foco e resposta emocional tenta o máximo possível a manter sua personalidade mas, não apenas suas emoções são desbalanceadas na presença de uma multidão, como também a sua moral e seu senso de responsabilidade em relação às suas ações. Você não se sente responsável por seus atos, bons ou ruins, mas imagina um futuro no qual o grupo será louvado ou culpado pelo que você fez junto. É neste momento que você se sente totalmente anônimo. A individualidade, que você geralmente gosta, é suprimida, e os fatores externos de seu ambiente orientam você, e os outros, em seu grupo.

A catarse

Se você estiver em Woodstock em 1969, você pode se sentir preenchido de amor e pertencimento e sair dessa experiência com um sentimento de admiração e alegria. Se você estiver em Woodstock em 1999, você pode se sentir enfurecido e agressivo e sair da experiência com costelas quebradas e uma condenação por crime. Em cada situação, uma multidão gigante de pessoas seguiu o caminho natural para a desindividualização. Eles se tornaram parte da manada, perderam-se na multidão e a seguiram, seja lá para onde ela tenha ido.

A desindividualização geralmente é promovida em qualquer organização onde é importante reduzir a inibição e fazer com que você faça coisas que você não pode fazer sozinho. Uniformes de soldados e polícia, guerreiros que se pintam, jogadores de futebol e seus uniformes, gangues com cores e símbolos, danças e rituais, são todos mecanismo de desindividualização. As empresas gastam milhões na construção de equipes em um esforço para incutir um senso de valor desindividualizado. Festas de repúblicas ou calouradas, têm mais potencial desindividualizador do que uma festa em que ninguém se sente absorvido pelo um grupo ou protegido por suas normas.

A consciência de manada é neutra

A consciência de manada tira suas inibições, bem como o seu senso de si e o medo da responsabilidade, mas isso não é necessariamente uma coisa ruim. A mesma força que traz pessoas, de outra forma racionais, para saquear e vandalizar e invadir a Polônia também pode levar a comportamentos pró-sociais. Se você está cercado por sugestões positivas, a desindividualização pode levá-lo a se esforçar mais em uma aula de exercícios, ou entrar em um abrigo para pessoas sem-teto ou ajudar a construir uma casa.

As pessoas que se esquecem do seu senso de si e trabalham juntas para salvar uma vida, ou procurar uma criança desaparecida, mostram que é uma força neutra da vontade humana. Uma vez que a desindividualização entra em ação, as pistas do ambiente moldam o comportamento resultante. As normas da multidão, bem ou mal, substituem as normas da vida cotidiana.

Outros experimentos

Em 1979 no estado de Arkansas nos Estados unidos, Robert D. Johnson e Leslie Downing mostraram como a manipulação de fatores externos poderiam mudar o comportamento das pessoas causando desindividualização. Seu estudo era muito parecido com o de Zimbardo, em que os sujeitos foram instruídos a dar choque em outras pessoas. Em seu estudo, as pessoas que davam os choques usavam roupas de Ku Klux Klan ou uniformes de enfermeira.

Os sujeitos dos trajes KKK deram mais choques do que os grupos de controle, e aqueles em uniformes de enfermagem deram menos choques. Os psicólogos Steven Prentice-Dunn e C. B. Spivey mostraram, em uma série de estudos no final dos anos 80 e início dos anos 90, que uma pessoa desindividualizada poderia ser influenciada para doar mais dinheiro do que o normal se os fatores de seu ambiente fossem pró-sociais. A desindividualização que ocorre no Super Bowl, no sermão da igreja, na rebelião da prisão e no levante revolucionário é o mesmo - já o comportamento a seguir não é.

Todos nós somos suscetíveis

Tenha em mente o quão propenso você é a desindividualização e em que situações você é mais suscetível a ela. Qualquer coisa, desde beber compulsivamente, até cantar o hino do seu time, podem diminuir sua consciência de si mesmo. Adicione a isso a difusão de responsabilidade e anonimato que vem de estar dentro de um grupo, vivendo em uma grande cidade, sentado em uma sala escura ou vestindo uma máscara. Tudo o que é necessário é um aumento do estado de excitação para que você se torne suscetível a qualquer causa que lhe chame a atenção.

Saiba que salas de bate-papo, caixas de comentários e fóruns de mensagens também são meios eficientes na causa de desindividualização. Quanto mais anonimato um usuário é permitido, mais poderoso é o efeito de ser protegido pelo grupo. Não há melhor exemplo do que as várias "raids" feitas pelo 4chan ou reddit.

A desindividualização permeia mundos virtuais, e os resultados são incontroláveis. Faça o download do "Second Life" e passeie. Mais cedo ou mais tarde você vai acabar em uma masmorra sexual. Jogue qualquer jogo no Xbox Live, e alguém acabará por reivindicar o conhecimento carnal de sua mãe. Você pode agradecer o anonimato e a desindividualização para ambos. Você pode pedir pela volta do meteoro ao ler certo comentário na internet, mas também pode agradecer ao universo ao ler outro.

Deve-se notar que a popularidade da desindividualização nas ciências sociais provavelmente provocou uma espécie de excesso de diagnósticos ao longo das décadas. Graças a um livro, em grande parte refutado, impresso em 1895, "The Crowd: A Study of the Popular Mind" (A multidão: Um estudo sobre a mente popular), escrito por Le Bon's de Gustave, os humanos em grandes grupos costumavam ser considerados perigosos porque, a qualquer momento, argumentou, as multidões podem se despir de seu comportamento civilizado e tornarem-se enxames sanguinários, que são facilmente manobrados conscientemente por líderes carismáticos. A pesquisa mais recente sugere que Le Bon estava errado e que as multidões podem ser bastante racionais - mas, se uma sensação de perigo cai sobre um grupo de pessoas exaltadas, eles podem se tornar hostis em resposta a esse medo compartilhado.

No livro de Michael Bond, "The Power of Others", ele explica que a maioria das multidões compartilha um objetivo comum, positivo e razoável, e tendem a permanecer pacíficos se as forças policiais e outras autoridades não provocarem uma resposta defensiva compartilhada entre os membros do grupo através da violência, ameaças ou exibições de força.

As jornadas de Junho e o pato amarelo

Um ótimo exemplo da capacidade defensiva de grupo aconteceu no Brasil, no que ficou conhecido como As Jornadas de Junho. Um grupo de ativistas em prol da mobilidade urbana começaram uma manifestação contra o aumento da passagem de ônibus. A manifestação, mesmo que pequena, teve uma resposta agressiva pela polícia. Em pouco tempo as manifestações se encheram e, o que começou como uma manifestação por vinte centavos, acabou se espalhando por todo país com as mais diversas (e às vezes absurdas) pautas políticas ou não políticas. De fato essas manifestações iniciais desencadearam uma cadeia de acontecimentos tão fortes que levaram o país a maior crise política de sua história pós-ditadura.

Concluindo

Se você deseja promover a desindividualização por uma boa causa no mundo analógico ou digital, ou impedir que uma multidão fique com medo e reaja, ajude as pessoas do seu grupo a sentirem-se seguras e mantenha um ambiente pró-social. Se ao invés você quiser desencorajar a desindividualização em você e em outros, você deve eliminar o anonimato e evitar rótulos desumanizadores. Quanto mais você sentir responsabilidade pessoal, mais restrições você irá mostrar.

Ou seja se você quer fazer uma super festa caótica e desinibida, desligue as luzes, aumente a música e, se apropriado, use fantasias.

Bônus - Ótimos filmes sobre consciência de manada

A Onda

Você pode baixar o filme A Onda aqui

A Experiência
Você pode baixar o filme A Experiência aqui

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Crenças Persistentes (Backfire Effect - Efeito "Tiro pela Culatra")

O Equívoco: Quando você se depara com fatos que contradizem aquilo que você acredita, você incorpora esses fatos novos e altera suas crenças.

A Verdade: Quando você depara com fatos que contradizem suas crenças, você os ignora e fortalece suas crenças.

Crenças Persistentes (Backfire Effect) é um desdobramento da Tendência de Confirmação, só que atinge algo ainda mais profundo na psiquê humana, não é só uma questão de ignorar os fatos que se discorda, mas passar a defender ainda mais as crenças quando se é contrariado.

A pesquisa

Em 2006, Brendan Nyhan e Jason Reifler, da Universidade de Michigan e Georgia, criaram artigos de jornais falsos sobre questões políticas polarizadas. Os artigos foram escritos de uma forma que confirmaria um equívoco generalizado sobre certas ideias na política americana. Assim que uma pessoa lia um artigo falso, os pesquisadores entregavam um novo artigo que corrigia o primeiro.

Por exemplo, um artigo sugeria que os Estados Unidos encontraram armas de destruição em massa no Iraque. O próximo tinha uma errata que dizia que os EUA nunca tinha encontrado nada, o que era a verdade. Os que se opunham à guerra ou que tinham fortes inclinações liberais tendiam a discordar do primeiro texto e aceitar o segundo.

Aqueles que já apoiavam a guerra e se inclinavam mais para o campo conservador tendiam a concordar com o primeiro, o falso, e discordar do verdadeiro. Estas reações não deveriam surpreender, a grande surpresa é que ao ler o segundo artigo os conservadores relataram ter ainda mais certeza que o Iraque tinha sim armas de destruição em massa.

Eles repetiram o experimento com outras questões como pesquisas com células-tronco e reforma tributária, e mais uma vez, eles apresentavam as correções e notavam que se as pessoas concordassem com o artigo falso, elas se apegariam ainda mais a suas opiniões quando confrontadas com os artigos verdadeiros.

Ou seja, as erratas estavam indo no caminho contrário do que deveriam, em vez de corrigir elas fortaleciam a crença dos pesquisados.

Uma vez que uma ideia é adicionada à sua coleção de crenças você passa a protegê-la como se ela fosse parte de sua própria personalidade. Isso é completamente instintivo e inconsciente, assim como a defesa que é automaticamente armada contra qualquer fato que possa contradizer suas opiniões.

Lálálálá não estou te ouvindo!
Assim como a Tendência de Confirmação protege sua crença quando você procura ativamente as informações, o backfire effect cria a defesa quando a informação contraditória é jogada na sua cara. Então se alguém tenta te convencer com fatos e argumentos de que a sua opinião está equivocada, "o tiro sai pela culatra" e você passa a fortalecer ainda mais a crença.

Com o tempo esse feito vai fazer com que você duvide menos de suas próprias conclusões, deixa de ouvir qualquer argumento contrário e inclusive passe a atacar os fatos contraditórios ativamente como se todos fossem mentiras ou uma grande conspiração.

O caso da mulher de 80 nomes

Em 1976, quando Ronald Regan estava concorrendo à Presidência dos EUA ele passou a contar muitas vezes em sua campanha a história de uma mulher de Chicago que enganava o sistema "Welfare" (Sistema de benefício social norte-americano similar ao nosso Bolsa Família).

Reagan dizia que essa mulher (sem nunca citar o nome dela) tinha 80 nomes, 30 endereços e 12 seguros sociais que ela usava para obter seus cupons de alimento, juntamente com parcelas em dinheiro do Medicaid e outros direitos sociais. Segundo ele, ela dirigia um Cadillac, não trabalhava e não pagava impostos.

Ele contou essa história muitas vezes em praticamente todas as cidades pequenas que ele visitou e, é claro, a história enfurecia todos que a escutava. Essa história não apenas ganhou grande escala no imaginário popular da época como influenciou todas as discussões sobre política pública daí pra frente.

Só que essa mulher nem sequer existia, tudo foi inventado.

Apesar da desmistificação da história e do passar do tempo essa senhora imaginária ainda vive no inconsciente popular, os americanos depois de um longo dia de trabalho ainda podem se enfurecer ao pensar que existe alguém por aí que tem do bom e do melhor sem fazer nenhum esforço.

A prima de uma amiga da minha empregada ganha 50 bolsas-família!

A força de propagação dessa narrativa é tão impressionante que a história é constantemente atualizada e usada como exemplo em discussões sobre a Lei de Bem Estar Social, mesmo que a verdade esteja a apenas a um Google de distância.

Esse tipo de narrativa é um forte instrumento para a Tendência de Confirmação. No caso da mulher dos 80 nomes, quando você ouve uma história desse tipo que confirma sua crença, de que "todo pobre que recebe Bolsa Família é vagabundo", por exemplo, você acaba se dando o direito de continuar sendo contra qualquer tipo de auxílio social.

Nesse momento você pode até achar essa história risível, mas certamente você já aceitou alguma história similar como real só por que ela fortalecia sua crenças, seja "os benefícios do chocolate", "o perigo do golpe comunista", "a venda da Amazônia", etc.


Sites de entretenimento levados a sério

Um grande exemplo de ceticismo seletivo é o site literallyunbelievable.org. Eles recolhem Facebook comentários de pessoas que acreditam artigos do jornal The Onion. Aqui no Brasil não achei um site que fizesse isso, mas basta ver na sua própria timeline do facebook o tanto de compartilhamento de notícias do G17 e Sensacionalista que são tidas como verdadeiras.

Ao examinar as provas pertinentes a uma determinada crença, as pessoas tendem a ver o que eles esperam para ver, o caso do Jean Wyllys ao lado, por exemplo se torna uma notícia acreditável pois existe um pré-conceito de evangélicos contra gays.

Isso ajuda a explicar o quão crenças antigas e excêntricas resistem à ciência, à razão e aos fatos concretos. É algo que está arraigado muito profundamente, mas você nunca se imagina como um maluco então nunca duvida de si mesmo. Você não acha que o trovão é mandado por Zeus, ou que bater na madeira três vezes espanta coisas ruins. Suas crenças hoje são lógicas, racionais e baseada em fatos, certo?

Ah, a internet!

Lembre-se da última vez que você discutiu na internet. Retome o sentimento de como foi. Você falaram provavelmente sobre algum assunto polêmico do momento (na data desse post certamente seria as eleições presidenciais), fizeram uma exaustiva troca de argumentos, você expôs tudo que você achava que era essencial a pessoa saber para que ela finalmente acreditasse em você.

Você ensinou algo valioso para aquela pessoa? Ela te agradeceu por você ter explicado detalhadamente os meandros da questão com calma e paciência? Ela admitiu estar errada em algum momento?

- Você não vai vir pra cama?
- Não posso, isso é importante.
-O que?
- Tem alguém errado na internet.
Não, provavelmente não. A maioria das discussões online seguem um padrão semelhante, cada lado lança ataques e vai puxando "notícias" de dentro da web para "provar" seus argumentos até que, no ápice da frustração de uma das partes, os ataques começam a serem pessoais e a discussão desbanda para o ad hominem.

Se você tiver sorte, a discussão será desencarrilhada, ou alguém que concorda com você tomará seu lugar, ou simplesmente todo mundo vai parar de discutir cada um mantendo para si a certeza da vitória e portanto mantendo a dignidade.

O que deveria ser evidente a partir dos estudos sobre o efeito "tiro pela culatra" é que você nunca pode ganhar uma discussão online. Quando você começa a puxar fatos e números, hiperlinks e citações, na verdade você está fazendo o adversário sentir ainda mais certeza de sua posição do que antes de iniciar o debate. E o mesmo acontece com você, o backfire effect vai fazer com que você acredite ainda mais em suas crenças iniciais.

Dando atenção ao negativo

Você já percebeu a tendência peculiar que você tem em deixar passar desapercebido os elogios, mas se sentir esmagado pela crítica? Mil observações positivas são ignoradas, mas se alguém te xinga seu "sangue ferve" e a sensação de raiva pode permanecer na sua cabeça por dias. Uma hipótese sobre as críticas e sobre o backfire effect é que você gasta muito mais tempo considerando as informações que você discorda do que as informações que você aceita.

As informações que se alinham com o que você já acredita passam pela mente como uma leve brisa, mas quando você se depara com algo que ameaça suas crenças, algo que entra em conflito com suas noções preconcebidas de como o mundo funciona, isso fixa na sua mente. Alguns psicólogos especulam que há uma explicação evolutiva para isso, seus antepassados passaram mais tempo pensando sobre estímulos negativos do que positivos, porque coisas ruins exigiam uma resposta. Aqueles que não conseguiam se posicionar contra estímulos negativos não conseguiam sobreviver.

Assimilação tendenciosa

Quando você lê um comentário negativo, quando alguém crítica algo que você ama, quando suas crenças são desafiadas, você se debruça sobre os dados em busca de fraqueza no argumento alheio. A dissonância cognitiva trava as engrenagens de sua mente até que você possa lidar com a questão.

No processo, você forma mais conexões neurais constrói novas memórias e reconclui que você continua certo como sempre esteve e suas convicções ficam mais fortes do que nunca. O backfire effect está constantemente moldando suas crenças e memória, para que sempre você considere que tem razão, através de um processo que os psicólogos chamam de assimilação tendenciosa.

Não sou eu que estou errado, é a ciência!

Geoffrey Munro, da Universidade da Califórnia, e Peter Ditto na Universidade Estadual de Kent preparou uma série de estudos científicos falsos em 1997. Um conjunto de estudos "provava" que a homossexualidade era provavelmente uma doença mental. O outro conjunto sugeria que homossexualidade era normal e natural. Eles, então, separaram os voluntários em dois grupos baseado na crença individual de cada indivíduo, assim ficou um grupo que já acreditaria no primeiro estudo e um que acreditaria no outro.

Cada grupo teve que ler o estudo que comprovava que sua opinião estava errada. Em ambos os lados da questão, depois de ler os estudos que não suportavam as suas crenças, a maioria das pessoas não relataram uma epifania, uma realização que estivera errado todos estes anos. Em vez disso, eles disseram que o problema era algo que a ciência ainda não pode entender.

Quando perguntado sobre outros temas mais tarde, como lei da palmada ou astrologia, essas mesmas pessoas disseram que não mais acreditam em pesquisas científicas. Em vez de lagar as suas crenças e encarar os fatos, eles rejeitaram a ciência completamente.

De volta a sua realidade

Lendo esse, você provavelmente teve uma forte resposta emocional. Agora que você sabe a verdade, você acredita que teria a capacidade de mudar de opinião?

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O texto estava enorme e cheio de exemplos de variadas pesquisas, mas acho que já deu pra entender. para mais informações você pode visitar o post original aqui http://youarenotsosmart.com/2011/06/10/the-backfire-effect/ onde também encontrará os links para as fontes.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Tendência de Confirmação

O Equívoco: Suas opiniões são o resultado de anos de análise racional e objetiva.

A Verdade: Suas opiniões resultam do fato de você prestar atenção nas informações que confirmam suas crenças e ignorar todas as informações que contradizem aquilo que você acredita.

As coincidências do dia a dia

Você está tendo uma conversa ocasional sobre filmes e alguém cita um antigo clássico, como por exemplo, O Rapto do Menino Dourado, ou qualquer outro filme antigo ou obscuro que há tempos não se ouve falar. A conversa se aprofunda no filme, você imaginam o que aconteceu com os atores, relembram algumas cenas e depois o papo segue seu rumo para outros assuntos.

Ao chegar em casa você nem lembra mais do filme, mas zapeando em sua TV imediatamente você é esmagado por uma grande coincidência, o filme está passando em determinado canal. É sempre estranho quando esse tipo de coisa acontece, é uma coincidência interessante, mas você não pensa muito sobre isso. No outro dia você está lendo notícias quando uma chamada específica lhe salta aos olhos "Filmes esquecidos da década de 80", passando os olhos você vê três parágrafos sobre O Rapto do Menino Dourado. As coincidências não param, você vai ao cinema e lá está o trailer de um filme novo do Eddie Murphy e depois você ainda recebe uma mensagem de seu amigo com fotos recentes da Charlotte Lewis.

Com essa enxurrada de coincidências você começa a questionar se não é uma grande conspiração do universo para te dizer alguma coisa. Um sinal vindo dos céus, seja lá com qual propósito. Mas não é. Isso é chamado de "Ilusão de Frequência".

Desde a conversa com seus amigos você fez dezenas de coisas, viu centenas de títulos de filmes na programação da TV, leu dezenas de notícias sobre cinema e celebridades, assistiu outros tantos trailers. Só que você simplesmente ignorou todas essas informações, afinal não havia nenhum conexão importante com toda a avalanche de informações que você consumiu.

Você só prestou atenção e deu importância nas informações relacionadas a O Rapto do Menino Dourado porque teve uma conversa sobre ele alguns dias antes. Provavelmente você viu centenas de referência a esse filme anteriormente e as ignorou, pois antes elas não tinham importância, o filme não estava no seu foco.

Acontece a mesma coisa quando você quer compra um carro e de repente começa a ver várias vezes o mesmo tipo de carro passando pela rua. Ou quando uma mulher descobre que está grávida e passa a ver grávidas em toda parte. Quando você terminou um relacionamento e passa a prestar atenção em todas as músicas românticas que ouve e parece que elas foram escritas pra você.

A frequência de coincidências é uma ilusão no campo da percepção, você começa a prestar mais atenção naquilo em que está interessado. Quando a ilusão de frequência passa do campo passivo para o ativo, ou seja, quando você passa a procurar aquilo que é de seu interesse, você incorpora a Tendência de Confirmação.

Distorcendo a realidade

Tendência de Confirmação é um filtro através do qual você vê a realidade de forma que ela corresponda às suas expectativas. Você passa a pensar de forma seletiva, busca por aquilo que te interessa e ignora todo o resto. O grande problema é que você pode começar a distorcer a realidade.


Existe toda uma indústria de "especialistas" que tem alicerce na Tendência de Confirmação, geralmente são pessoas de opinião forte que têm espaço na TV (Datena, pastores, Arnaldo Jabor são bons exemplos), eles oferecem a seu público sua visão de mundo embalada em uma roupagem superconvincente, se você aceita, você passa a acreditar nessa pessoa e absorver seus "argumentos" como se fossem uma verdade absoluta, ao mesmo tempo que passa a ignorar ou até mesmo atacar qualquer tipo de argumento contrário.

Não importa se esses "especialistas" estão falando a verdade ou não, isso é irrelevante, você passa a ouvi-los não para obter informação, mas para buscar confirmação de que suas crenças estão certas.
"Seja cuidadoso, as pessoas gostam de ouvir sobre aquilo que já sabem. Lembrem-se que elas ficam desconfortáveis quando você diz coisas novas. Coisas novas... bom, coisas novas nãos são o que eles esperam. Eles gostam de saber, por exemplo, notícias sobre um cachorro que mordeu um homem. Afinal, morder é o que os cachorros fazem. Eles não querem saber se um homem mordeu um cachorro porque não é assim que o mundo funciona. Em suma, o que as pessoas pensam que querem é notícia, o que realmente desejam é a normalidade. Fale para as pessoas o que elas já acreditam que seja normal, que seja verdade." 
(Lord Vetinari, personagem do série Discworld, de Terry Pratchett)


Se você checar as listas de desejos de sites como Amazon.com você verá que raramente as pessoas compram livros que podem desafiar a noção de como as coisas são eu devem ser. Por exemplo, durante a eleição presidencial dos EUA em 2008, Valdis Krebs, do site orgnet.com, analisou a tendência de compras no Amazon.

Pessoas que apoiavam Obama eram as mesmas pessoas que comprava livros que eram a favor do atual presidente, enquanto pessoas que não gostavam de Obama compravam livros que criticavam o presidente. Ou seja, assim como no caso dos "especialistas" da TV, as pessoas não estavam comprando livros para obter informações novas, mas sim para confirmar suas crenças atuais.

Krebs também pesquisou sobre o hábito de agrupamento de pessoas em redes sociais durante anos e conclui o mesmo que a Tendência de Confirmação prevê: você quer estar certo sobre sua visão de mundo, então se agrupa com pessoas que tem visão de mundo similar e busca por informações que confirmam suas crenças, além de evitar quaisquer evidências e opiniões contrárias.

Meio século de pesquisas colocou a Tendência de Confirmação como um dos maiores obstáculos para a imparcialidade. No meio jornalístico, por exemplo, é necessário contar a história com o mínimo de tendencialismo, sem ignorar evidências contrárias, mas na prática observamos o contrário. Apesar de menos visível, isso também acontece no meio científico, alguns pesquisadores tendem a concluir e depois encaixar os fatos para suportarem essa conclusão, em vez de fazer uma pesquisa neutra.
"Se fosse para tentar identificar um único aspecto problemático do raciocínio humano que merece atenção sobre todos os outros, a Tendência de Confirmação teria que estar entre um dos melhores candidatos. Muito se tem escrito sobre essa questão, e parece que ela é tão forte que a pessoa é levada a se perguntar se a tendência de confirmação, por si só, pode ser responsável por uma fração significativa das disputas, brigas e desentendimentos que ocorrem entre os indivíduos, grupos e nações."
(Raymond S. Nickerson)
Reeditando a memória

Em um estudo realizado por Mark Snyder e Nancy Cantor na Universidade de Minesota em 1979, um grupo de convidados lia sobre uma semana da vida de uma mulher imaginária chamada Jane. Durante essa semana Jane fazia coisas que mostravam que ela poderia ser extrovertida em algumas situações e introvertida em outras.

Alguns dias se passaram e os indivíduos foram convidados a voltar. Os pesquisadores dividiram essas pessoas em dois grupos e pediram para que ajudassem a decidir se Jane era adequada para um determinado tipo de trabalho. A um grupo foi perguntado se ela seria uma boa bibliotecária; ao outro foi perguntado se ela seria boa agente imobiliária. No primeiro grupo, as pessoas se lembravam dela como uma pessoa introvertida. No segundo as pessoas lembravam a parte extrovertida dela.

Sendo tanto introvertida quanto extrovertida ela poderia ser adequada para ambos os trabalhos, portanto seria indicada pelos dois grupos. Depois de um tempo voltaram a perguntar a esses grupos, só que trocando o trabalho. Ao grupo 1 perguntavam se ela seria boa como agente imobiliária, ao grupo 2 se seria boa bibliotecária.

Presos em sua avaliação anterior as opiniões divergiam, e ambos concluíram que ela não seria boa para aquele tipo de emprego. Ou seja, o estudo sugere que mesmo a memória é vítima de tendência de confirmação. Como na primeira pergunta eles focaram em uma característica só para fazer a indicação, essa característica é que ficou impressa na memória enquanto ignoravam a segunda característica.

Buscando aprovação e ignorando o resto

Quase sempre as pessoas acham aquilo que querem,
se sua pesquisa for guiada por suas expectativas.
Um estudo feito em Ohio em 2009 revela que as pessoas passam 36% mais tempo lendo um texto que se alinha com as suas opiniões pessoais. Outro estudo, no mesmo estado e ano, pesquisadores apresentavam a um grupo clipes do programa The Colbert Report (uma paródia humorística sobre política), e as pessoas que se consideravam politicamente conservadoras consistentemente relataram que "Colbert apenas finge estar brincando, mas realmente quer dizer o que disse". Ou seja, elas acreditam nos pseudoargumentos do comediante como se fosse a verdade.
"Graças ao Google, podemos buscar imediatamente o suporte para a ideia mais bizarra que se possa imaginar. Se a nossa pesquisa inicial não aparecer os resultados que queremos, é só ignorar e tentar uma consulta diferente." 
Justin Owings
Um método popular para o ensino de Tendência de Confirmação, introduzida por PC Wason em 1960, é mostrar os seguintes números para uma turma de alunos: 2, 4, 6.

Os professores então perguntam para os alunos porque eles acham que esses números estão nessa ordem. Então os alunos apresentam outros três números em determinada ordem usando a regra que eles imaginam que foi utilizada, depois apresentam uma sequência de números que segue a mesma regra. O professor deve olhar a sequência apresentada e responder com apenas "sim" ou "não".

Normalmente os estudantes "entendem" a regra e escrevem sequências como 10, 12, 14 ou 22, 24, 26 e apresentam ao professor, que vai responder se a explicação é correta ou não. Ao ver as sequência o professor responde uma sequência de "sims" e os alunos vão confirmando que eles "entenderam" qual é a regra. Mas não entenderam de verdade.

Para saber qual é a regra alguns estudantes deveria apresentar sequências como 2, 2, 2, ou 9, 8, 7, pois somente apresentando sequências que não se encaixam na regra imaginada seria possível confirmar a regra. Se houver apenas a confirmação eles não descobrem que a regra original era uma série qualquer de números em ordem crescente, como por exemplo 10, 15, 50.

O exercício é destinado a mostrar como você tende a chegar a uma hipótese e, em seguida, trabalhar para provar que essa hipótese é verdadeira, em vez de testar se a hipótese imaginada pode estar errada. Você fica satisfeito com a confirmação inicial e simplesmente não procura falhas ou exceções.

Se agrupando e protegendo

Parece ser natural procurar lugares seguros para abrigar sua ideologia e defendê-la, seja escolhendo amigos com opiniões similares, se aproximando de colegas de trabalhos que confirmam suas opiniões e consumindo informações que não contradizem suas crenças.

Sempre que suas opiniões ou crenças são entrelaçados com sua autoimagem você tende a defendê-las com unhas e dentes para não perder o conceito de quem você é, portanto naturalmente evita o conflito ideológico.

Ao longo do tempo, depois de acumular tantas informações que confirmam sua ideologia, em revistas, livros, TV e internet, você pode se tornar tão confiante em sua visão de mundo que ninguém mais será capaz de dissuadi-lo.

Mas lembre-se que na ciência você chega mais perto da verdade procurando evidências contrárias, nós podemos usar o mesmo método em nossa vida, para formar opiniões menos alienadas.

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Texto original: http://youarenotsosmart.com/2010/06/23/confirmation-bias

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A falácia do Mundo Justo

O Equívoco: O mundo é justo, você colhe o que planta.

A Verdade: Em geral pessoas que têm "sorte na vida" não fizeram nada para merecê-la, assim como pessoas que sofrem não necessariamente merecem esse sofrimento.

Ao andar na rua e se deparar com um pedinte a maioria das pessoas tende a pensar que ele é um vagabundo que não quer trabalhar, que provavelmente fez escolhas erradas na vida ou simplesmente resolveu viver na miséria. Existe uma ideia impregnada no "inconsciente coletivo" de que fracassados fizeram por merecer sua má sorte.

Hoje uma expressão esotérica muito difundida que exemplifica bem a questão é o karma. Segundo este conceito toda ação gera uma reação correspondente, portanto se você fizer o bem você atrairá o bem e se fizer o mal atrairá o mal para si. É um conceito bonito, principalmente se ele serve como instrumento inspirador para que façamos o bem.

No entanto ele tem sido usado na maioria das vezes na esfera do julgamento, em vez de ser uma ferramenta para o autodesenvolvimento. As pessoas olham para o mendigo e acham que ele deve ter feito algo muito errado para merecer sua miséria. Mas não é bem assim, em geral nossas ações e pensamentos quase não tem correlação com nossa sorte ou azar.

Vejamos o caso dos mendigos e moradores de rua, segundo uma pesquisa a maioria dos moradores de rua são homens desiludidos com o amor. Cada história é uma história diferente, o fator em comum é que em todas elas a miséria não veio por vontade própria, erro ou outras ações negativas, foram fatores externos que fugiam completamente do controle deles.

Mas nós estamos impregnados com esse maniqueísmo que separa o mundo entre o bem e o mal, entre o certo e errado, e não é nossa culpa, nós somos o tempo todo bombardeados com esse dualismo pela literatura, filmes e séries.

Na ficção é comum que o herói vença o vilão pois essa é a forma que as pessoas gostariam que o mundo funcionasse: de forma justa. Mas na realidade a coisa é bem diferente, não existe essa dualidade do bem contra o mal, o mundo é muito mais complexo do que isso.


Essa tendência a uma visão maniqueísta de mundo é conhecida como "Falácia do Mundo Justo" (Just-World Fallacy). Essa forma de ver o mundo faz com que você julgue pelo olhar da "causa e efeito" e acredite piamente que o mendigo, drogado, marginalizado ou mesmo uma pessoa próxima que esteja passando por maus bocados fizeram algo de ruim no passado para merecer os problemas atuais.

Mas não me entenda errado, não estou falando de escolhas boas e ruins que levaram a situações boas ou ruins. A palavra chave é merecimento, achar que quem está na sarjeta certamente fez algo para merecer isso. E não é bem assim.

Em um estudo realizado por Malvin Lerner e Carolyn Simmons em 1966 eles colocaram 72 mulheres para assistir a um teste, a voluntária tinha que tentar resolver alguns testes de lógica, se ela não conseguisse resolver ela tomava um choque. Mas essa mulher que estava no "centro do experimento" na verdade era parte do time de pesquisadores e fingia tomar choque, o experimento real era focado nas outras 72 mulheres que achavam que o sistema de perguntas e choques era real.

Lerner criou essa pesquisa depois de algumas observações em seus estudos sobre doenças mentais. Percebendo que ele, outros médicos e enfermeiras às vezes insultavam pessoas que estavam sofrendo, ou faziam piadas sobre sua doença e julgamentos preconceituosos sobre o caráter dos pacientes, ele supôs que esse comportamento poderia ser uma tentativa da psiquê para se proteger diante de uma quantidade implacável de miséria e desespero.

Após a mulher responder perguntas e tomar choques (de mentira) eles perguntavam às observadoras sobre o que acham da mulher e elas tendiam a desvalorizá-la, fizeram duros julgamentos sobre seu caráter, sua aparência e sua inteligência. Disseram que ela merecia tomar choque por ser burra, etc.

Lerner também dava aulas de medicina e em classe também percebeu que os estudantes tinham a tendência de achar que toda pessoa pobre era preguiçosa e aproveitadora. Então conduziu um estudo em que dois homem resolviam um quebra-cabeça, como se fosse uma competição entre os dois, mas no final simplesmente davam dinheiro a um deles de forma completamente aleatória.

Os observadores, nesse caso, foram informados que a recompensa era aleatória, mas ainda sim, quando questionados sobre esses dois homens eles teciam elogios ao que ganhou o prêmio e depreciavam o que perdeu. Falavam que o ganhador era mais inteligente e talentoso, como se tivessem esquecido completamente que a recompensa foi dada aleatoriamente.

Essas pesquisa parecia evidenciar que é nossa tendência achar que o mundo é justo, e mesmo quando fica explicito que não é, nós fingiremos que é.
"Zick Rubin, da Universidade de Harvard e Letitia Anne Peplau da UCLA realizaram pesquisas para examinar as características das pessoas com fortes crenças em um mundo justo. Eles descobriram que as pessoas que têm uma forte tendência a acreditar em um mundo justo também tendem a ser mais religiosas, mais autoritárias, mais conservadoras, mais propensas a admirar os líderes políticos e instituições sociais existentes, e mais propensos a ter atitudes negativas para os grupos desfavorecidos. Em menor grau, mas ainda significativo, os crentes em um mundo justo tendem a 'sentir menos necessidade de se envolverem em atividades de cunho social com foco em aliviar a situação das vítimas sociais'."
- Claire Andre e Manuel Velasquez em um ensaio do Centro Markkula de Ética Aplicada
Você deve ter ouvido a expressão "tudo que vai volta" ou talvez você tenha visto uma pessoa receber o que estava por vir para ela e pensou, "bendito karma". Esses são exemplos da Falácia do Mundo Justo.

Afinal, é chato pensar que o mundo não é justo. As pessoas se sentem melhor acreditando no karma, na justiça, na equidade e recompensa. Um mundo com os justos de um lado da escala, e os maus do outro parece fazer sentido. Você quer acreditar aqueles que trabalham duro chegam a frente, e aqueles que são preguiçosos não.

Na esmagadora maioria das vezes não é assim que funciona, o sucesso é influenciado por incontáveis fatores como quando e onde você nasceu e cresceu, o status sócio-econômico de sua família e também pelo puro acaso. Nem todo o trabalho duro do mundo podem mudar suas condições iniciais, embora não se possa dizer que quem nasce pobre inexoravelmente morrerá pobre e que eles devam desistir, as exceções estão ai para provar o contrário, mas são apenas exceções.

A Falácia do Mundo Justo leva a uma falsa sensação de segurança, ela te dá uma ilusão de controle, você assume que suas ações são suficientes para decidir o seu destino. Você se sente seguro acreditando que aquelas pessoas que se comportam mal acabam falidas, viciadas, grávidas ou violentadas.

É irritante ver que pessoas que não fizeram absolutamente nada além de nascer alcançam o sucesso, pior ainda quando vigaristas, estelionatários e desonestos em geral conseguem chegar no topo da ascensão social.

No fundo você ainda quer acreditar que o trabalho leva ao sucesso e a preguiça à ruína, para que você não perca as esperanças e continue lutando.

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Texto original: http://youarenotsosmart.com/2010/06/07/the-just-world-fallacy/#more-455

Leia também: http://zenhabitsbr.blogspot.com.br/2011/06/ilusao-do-controle.html

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Introspecção Ilusória

O Equívoco: Você sabe exatamente por que gosta de algumas coisas e por que sente o que está sentindo.

A Verdade: A origem de certos estados emocionais lhe são inacessíveis, e quando pressionado a explicá-los você simplesmente inventará uma justificativa.

Primeiramente olhe essa foto:

Essa é uma das peças mais populares do DevianArt.com

Agora imagine que você tem que escrever uma resenha explicando o por que dessa obra ser tão popular. Não continue a leitura, dê uma chance para esse experimento, pare e tente fazer uma pequena resenha, mesmo que seja apenas em sua cabeça. Por que essa foto é tão boa?

Continuemos

Existe uma certa música que você ama, ou alguma obra de arte que tem apego? Talvez você tenha algum filme preferido que reassiste várias vezes durante a vida, ou um livro. Imagine qualquer uma dessas obras, algo que você realmente gosta. Agora, em uma frase, tente explicar o por que de você gostar tanto dessa obra em particular.

Uma das possibilidades é você achar muito difícil colocar isso em palavras, mas se for pressionado a isso, certamente escreverá alguma coisa minimamente coerente. O problema é que, de acordo com as pesquisas, sua explicação não passará de bobagens.

O Poster

Tim Wilson, da University of Virginia, demostrou isso com um teste chamado "O Poster". Ele trouxe um grupo de estudantes em uma sala e mostrou uma série de cartazes, os estudantes podiam simplesmente pegar o cartaz que mais lhe agradava e ficavam com eles.

No outro grupo ele fez um pouco diferente, mostrou os cartazes aos estudantes e pediu para que eles justificarem sua escolha antes de poder pegar os cartazes. Depois disso esperou por seis meses e foi atrás dos estudantes para perguntar se eles estavam satisfeitos com sua escolha.

As pessoas do primeiro grupo, que simplesmente pegaram o cartaz que lhes agradavam, continuavam satisfeitas com sua escolha. Os estudantes do segundo, que tinham que justificar a escolha, estavam insatisfeitos.

Os primeiros estudantes pegaram, em sua maioria, alguma pintura, ou algo abstrato. O segundo tendia a pegar posters motivacionais, como um gato agarrado a uma corda.

Ok, mas o que isso quer dizer na prática?

Essa pesquisa trouxe uma série de questionamentos que contesta toda a indústria de análise crítica de arte, jogos, música, cinema, poesia, literatura, etc. Além de pesquisas de mercado, que observado pela ótica desse experimento, não passaria de chutes imprecisos.

Quando você pergunta para uma pessoa o por que ela gosta ou não gosta de algo, ela passará por um processo em que terá que transformar um profundo sentimento completamente irracional, em uma linguagem formal, racional e lógica. O caminho dessa interpretação parece simples, no entanto o caminho entre uma linguagem puramente emocional para a racional é tortuoso. Além disso, quando você tem que criar uma justificativa desse tipo você se questionará na forma como sua justificativa demonstra sua personalidade.

No exemplo d"O Poster", a maioria das pessoas se sentiram mais tentadas a escolher uma pintura abstrata, mas seria muito mais difícil explicar racionalmente essa escolha, por isso preferiram um poster motivacional, assim poderiam justificar com qualquer bobagem que viesse à mente.

O outro experimento

Em um experimento similar feito pelo mesmo psicólogo d"O Poster", ele mostrava às pessoas duas pequenas fotos de duas pessoas diferentes, então perguntava qual das duas pessoas era mais atraente. Depois ele entregou uma foto maior, com uma pessoa diferente das duas primeiras e falava que essa tinha sido sua escolha. Ao serem questionados dos motivos de sua escolha, eles não percebiam que a foto tinha sido trocada e acabavam justificando sua escolha de forma completamente arbitrária.

Essa crença de que você sabe racionalmente o porque de suas escolhas é chamada de Introspecção Ilusória. Você acredita que conhece a si mesmo, acredita que sabe os motivos pelo qual você é o que é, e acredita que esse conhecimento diz algo sobre como você agirá no futuro. Mas a pesquisa mostra o contrário.

Vez por vez os experimentos vão mostrando que a "introspecção" não é uma profunda busca interior, mas sim uma fabricação de uma ficção que seja minimamente coerente com parte de seus sentimentos. Você só passa o olho naquilo que sentiu e cria uma justificativa que seja possível acreditar.

Até o ato de ter que se justificar te muda

Se você tem que fazer essa justificativa para os outros, você também se esforça para que elas acreditem. Veja que para pessoas diferentes você usará uma justificativa um pouco diferente, pois você sabe mais ou menos no que a pessoa está apta a acreditar, baseada na relação que você tem com ela. Em verdade é possível que você explique o mesmo "sentimento" de forma completamente diferente para pessoas diferentes.

Outro ponto interessante é que você pode modificar seu discurso completamente dependendo do feed back de seu interlocutor. Um bom exemplo é quando você está falando de uma obra (filme, seriado, livro) que gosta e assim que alguém fala que não gosta por algum fator específico, você assimila essa fator, ou tenta justificá-lo.

Escolhas de momento


Você não está no mesmo humor ou estado de espírito o tempo todo, é comum ter variações drásticas de humor durante um mesmo dia e seu humor vai ser determinante em sua visão de mundo. Portanto quando você é apresentado a algum objeto externo, seja obra, lugar ou pessoa seu sentimento inicial sobre esse objeto novo estará intrinsecamente ligado a seu humor.

Quando você está de mal humor um filme de comédia pode parecer um porre e vice versa. É comum você estar feliz, bêbado e de bem com a vida em uma festa e adorar todas as pessoas que estão lá naquele momento, mas no dia seguinte, acordando de ressaca, você verá que as pessoas que pareciam reluzentes na noite anterior não são assim tão interessantes. Nem preciso dizer as implicações disso no que conhecemos como "paixão", né?

De fato já é muitíssimo difícil controlar nosso estado de espírito, mais difícil ainda é controlar a forma como esse estado faz com que interpretamos o mundo ao nosso redor. Tentar justificar nossos gostos portanto, é mera ilusão.

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Texto original: http://youarenotsosmart.com/2010/05/26/the-perils-of-introspection/

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Fanboysmo e lealdade a marcas

O Equívoco: Você prefere as coisas que possui às coisas que não possui porque fez uma escolha racional no momento da compra.

A Verdade: Você defende as coisas que possui porque racionaliza suas "escolhas" passadas para preservar o senso de controle sobre sobre suas decisões.

A internet mudou a forma como as pessoas discutem

Visite qualquer lista de discussões online e você encontrará uma eterna guerra entre fanboys, cada um defendendo com unhas e dentes o por quê de o produto que escolheu ser melhor que todos os outros.

Na cultura moderna do consumismo as pessoas sempre estarão competindo por status, esse debate é uma das formas delas imporem ao mundo que seu gosto é melhor que o gosto dos outros. (Leia também Rebeldia Lucrativa)

Mac x PC, PS3 x XBox, iPhone x Android - e por ai vai.
Normalmente, esses bate-bocas são entre os homens, porque os homens têm um maior apego ao ego e, mesmo que não haja nenhum tipo de insulto real em uma afirmação como "Samsung é boa nesse tipo de tecnologia", um fanboy da Apple pode (e normalmente vai) se sentir pessoalmente ofendido por isso. Essas discussões geralmente são sobre gadgets que custam muito dinheiro, e quanto mais caro é o produto maior é a lealdade que seus consumidores têm pela marca.

Fanboysmo

Fanboyismo não é nada de novo, é apenas um componente de branding, algo que os profissionais de marketing e anunciantes fazem desde os primórdios, quando a Quaker Oats em 1957 criou um logotipo amigável para ir em seus sacos de aveia. A empresa queria que as pessoas associassem a confiabilidade e a honestidade dos quakers com seu produto. E funcionou.

Esta foi uma das tentativas, senão a primeira, de criar fidelidade à marca - essa conexão emocional que as pessoas têm com algumas empresas que as transformam em defensores dedicados de marcas que não dão a mínima pra eles (só querem que eles continuem comprando).

Você não se importa com qualidade ou gosto, mas sim em justificar sua "escolha"

Em um experimento na Universidade de Baylor eles distribuíram para as pessoas copos contendo Coca Cola ou Pepsi, os copos eram todos iguais e não havia como distinguir um produto do outro. Enquanto as pessoas bebiam os refrigerantes eles escaneavam o cérebro dos participantes, monitorando o grau de satisfação para cada um deles. Nesse experimento o dispositivo demostrou claramente que um certo número de participantes sentia mais prazer ao beber Pepsi do que Coca.

Quando os pesquisadores demonstravam aos participantes que eles gostaram mais de Pepsi do que de Coca, alguns fanboys da Coca Cola fizeram algo inesperado, eles contrariaram seu próprio cérebro e diziam que tinham gostado mais da Coca.

Ou seja, eles confrontaram a forma como o cérebro interpretou o gosto e defendem sua "escolha racional". Olhando superficialmente parece que eles simplesmente mentiram, no entanto não foi só uma mentira para se proteger, eles efetivamente modificaram sua memória de forma a ter preferido, desde o começo, o seu refrigerante predileto.

Em algum momento do passado eles passaram a ser clientes leais da Coca Cola, não necessariamente porque gostavam dela mais do que da Pepsi, mas por outras questões. Portanto, a contradição nesse caso ativava suas enormes construções mentais e impedia que eles admitissem que tinham gostado mais do concorrente.

Adicione esse tipo de lealdade a algo caro, ou a algum hobby que demande mais investimento de tempo e dinheiro, e você terá um fanboy. Eles vão defender aquilo que gostam, vão ridicularizar a competição e ignorarão os fatos que os contradizem.

Como é criado esse tipo de conexão emocional?

Se você pensar em produtos de primeira necessidade você não verá fanboys. Todos têm que comprar papel higiênico, por exemplo, ou gasolina, mas dificilmente eles defenderão certas marcas em detrimento a outras, pois nesse caso você não tem escolha se vai comprar o produto ou não, você precisa dele então qualquer um pode servir.

Por outro lado, se o produto é desnecessário, como um iPad, há uma grande chance do consumidor se tornar um fanboy, pois ele sente a necessidade de justificar para a sociedade por que ele gastou uma quantidade considerável de dinheiro em um produto desnecessário, como um tablet, e por que ele escolheu um Apple em detrimento a outras marcas.

Como a marca se torna parte de sua personalidade

Se você tem que racionalizar por que comprou determinado item de luxo, provavelmente vai encontrar formas de encaixar aquele item em sua autoimagem. Uma marca te dá um tipo de individualidade, se torna praticamente uma parte de sua personalidade, te dá a oportunidade de mostrar que você é a pessoa que você pensa que é.

A Apple, por exemplo, não foca sua publicidade na qualidade de seus produtos, mas sim no quão "descolados" são os seus consumidores. A ideia é que você compre não só o produto, mas um estilo, como se você pudesse dizer: "Não sou um nerd conservador, tenho bom gosto e talento."

Um computador da Apple é realmente melhor que um PC? Quando você analisa os dois empiricamente, faz os testes de hardware e software de forma objetiva, há realmente uma diferença?

Isso não importa

Essas considerações vêm depois que a pessoa começa a ver como aquele produto se tornou parte de sua personalidade. Quando você começa a se ver como alguém que só usa Apple, ou que dirige apenas Hondas, ou que só bebe Stella, você já se tornou um fanboy. Depois disso você terá os argumentos para defender sua marca, além de apontar as "falhas" em todas as outras marcas (e convenientemente ignorar as falhas da marca de sua escolha).

Há uma série de vieses cognitivos que convergem para criar esse comportamento. Você realmente passa a sentir que os produtos que você possui são superiores aos outros e que vale a pena pagar mais por isso (Leia sobre o Endowment Effect).

Psicólogos fizeram um teste demostrando que o valor do produto está associado à conexão emocional. Num experimento eles perguntaram ao grupo quanto eles estavam dispostos a pagar por um brinco de pena (desses vendido por hippies na rua), como sabemos o valor de produção desse artigo é ínfimo, então o valor que eles deram não se baseia no seu custo.

Na média o valor proposto por eles ficou em torno de R$15. Depois disso então elas ganharam esses brincos de presente. Depois os pesquisadores perguntaram por quanto elas venderiam o item recém adquirido e o valor subiu para uma média de R$25.

Ou seja, a propriedade, mesmo que por um curto período de tempo, agregou um valor emocional especial para as coisas, mesmo que essas coisas tenham sido ganhadas.

Outro viés que podemos observar é quando você gasta dinheiro com algo que originalmente não queria gastar e que não pode ser recuperado. Digamos que você paga pela comida e acha ela ruim, mas come do mesmo jeito, ou paga por um ingresso de cinema, não gosta do filme, mas assiste até o final.

Uma vez que você já gastou o dinheiro com algo você acaba se apegando a ele, digamos que você assina Sky há anos, mas vê que existem outras TVs por assinatura mais em conta ou mais completas hoje. Você vai instintivamente relutar (e criar argumentos para) não mudar de produto. Você sente que estaria perdendo o dinheiro que gastou investindo na marca.

Em resumo, quanto mais dinheiro/tempo você gastou com alguma coisa, com mais paixão você vai defendê-la

Digamos que você vai comprar uma televisão, normalmente você vai considerar uma série de fatores antes de fazer sua escolha, por enquanto você ainda não é leal a nenhuma marca e a escolha final acaba sendo meio instintiva. Ainda que as TVs sejam idênticas você vai valorizar mais aquela que você escolheu.

Para impedir que você se arrependa de ter comprado, você sobrevaloriza o produto depois da compra. É uma escolha puramente emocional. As justificativas (na maioria das vezes ilusórias) que você cria para defender sua escolha são importantes para que você diminua a ansiedade provocada pelo questionamento sobre qual é melhor.

As razões da escolha de um produto são normalmente irracionais, mas nesse terreno fértil da internet as pessoas vão continuar brigando e tentando racionalizar seu fanboysmo, como se isso demonstrasse o controle que ela tem sobre si mesma e a sua capacidade de escolhas.

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Texto Original: http://youarenotsosmart.com/2010/05/19/fanboyism-and-brand-loyalty/

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Rebeldia Lucrativa

O Equívoco: Tanto o consumismo quanto o capitalismo são sustentados pelas corporações e publicidade.

A Verdade: Tanto o consumismo quanto o capitalismo são sustentados pela competição entre os consumidores por status social.

Beatniks, punk rockers, grunge rats, metal heads, goth kids, hipsters - todas essas tribos têm algo em comum e esses são só os exemplos mais atuais. Voltando um pouco teremos os expoentes da contracultura, hippies e os anti-qualquer-coisa que simplesmente iam na direção contrária da cultura de massa.

A vontade de ir contra a maioria é comum, a maioria das pessoas viveu um tipo de adolescência rebelde querendo ir contra tudo e todos, essa rebeldia pode ter sido desencadeada ao descobrir os paradigmas da manipulação midiática, o apelo para o consumismo ou, simplesmente, para separar "ideologicamente" grupinhos no colégio.

Era uma época em que você tentava se diferenciar dos demais, encontrar sua verdadeira personalidade, se tornar uma pessoa singular. Então você parou de consumir blockbusters, música pop e parou de assistir novelas justamente para se sentir diferente do rebanho.

Mas apesar de se distanciar da cultura de massa você continuou assistindo filmes, séries e ouvindo músicas, mesmo que sejam títulos que supostamente pouca gente conhece. Mas se você acha que por esse caminho você conseguiu comprar sua individualidade, bom, você não é tão esperto quanto pensa.

O início

Desde 1940, quando o capitalismo se apropriou da publicidade, relações públicas e pscicologia, o mercado foi ficando muito mais eficiente, eles sempre terão algo a lhe oferecer, independente do seu gosto ou suposta singularidade.

Esse punk acima, por exemplo, ele teve que comprar as roupas, calçados, piercings, tatuagens e fazer um corte de acordo com a imagem rebelde que queria passar. Ou seja, para ele ter o visual revoltadinho que ele queria muita gente ganhou dinheiro.

Esse é o estranho paradoxo, tudo é parte do sistema, mesmo a ideologia anti-sistema. Cada nicho aberto pela rebelião anticapitalismo abre um novo nicho de mercado a ser explorado pelo capitalismo. Imediatamente as empresas se empenham em criar produtos para as pessoas que não querem comprar o que todo mundo está comprando.

O consumo da ideologia anti-consumista

No final dos anos 90 e começo dos anos 2000 essa manifestação anti-sistema ganhou o cinema com filmes como Clube da Luta, Beleza Americana, Nação Fast Food e A Corporação. Mas mesmo que os criadores dessas obras tivessem a melhor das intenções o seu trabalho gerou lucro. Seu grito contra o consumo foi consumido.

Michael Moore, Noam Chomsky, Kurt Cobain, Andy Kaufman - eles podem ter tido ideais legítimos e possivelmente estavam realmente preocupados com a criação de arte ou pesquisas acadêmicas, mas uma vez que seu trabalho caiu no mercado ele encontrou seu público e se tornou um produto que os fez ricos.

Joseph Heath e Andrew Potter são dois filósofos que escreveram um livro sobre isso em 2004, chamado The Rebel Sell (Rebeldia Vende, em tradução livre). O tema central é que você não pode ir contra o "sistema", "cultura de massa" ou "a humanidade" através de um consumismo rebelde.

Ilusão ideológica

Veja que o pensamento comum da maioria dos grupos "anti-qualquer-coisa" é bem parecido:
Todas as instituições são interligadas e trabalham juntas para manter as pessoas no comodismo e assim vender mais para a maioria delas. Os meios de comunicação e publicidade em geral trabalham em prol da homogeneização dos desejos de consumo da grande maioria.

Para fugirmos do conformismo e do consumismo teremos que virar as costas para a cultura de massa, só então nos libertaremos dessa prisão e veremos o mundo como ele realmente é. Finalmente sairemos dessa grande ilusão e nos tornaremos pessoa reais.

Mas Heath e Potter dizem que o problema é que o sistema não dá a mínima para o conformismo. Na verdade ele ama a diversidade e precisa de descolados, undergrounds e hipsters para que ele prospere cada vez mais.

Reciclando o mercado

Como exemplo digamos que você gosta de uma ótima banda que apenas um pequeno numero de pessoas conhecem. Essa banda é pequena, não tem dinheiro para gravar um disco e só toca por prazer.

Mas eles são muito bons e você passa a falar sobre eles para todos, assim a fanbase dessa banda cresce, eles se tornam mais conhecidos e finalmente conseguem fazer dinheiro com shows, gravar um CD, aparecer na MTV e portanto ter mais fãs, mais visibilidade e mais dinheiro.

Depois disso tudo eles acabaram se tornando cultura de massa também e você deixa de ouvi-los, pois afinal todo mundo conhece. Então você vai continuar procurando bandas novas e autênticas e o ciclo se repete indefinidamente.

Bandas desconhecidas são um tipo especial de mercadoria. Eles sempre ascendem trazendo mais produtos ao mercado, seja as roupas vintage, acessórios descolados, indicações de filmes cult e todo um status social pseudo-underground que não são imediatamente absorvidos pela maioria, e portanto mantém um status social diferenciado.

Vendendo para rebeldes

Na década de 60 levou meses até que alguém teve a brilhante ideia de vender camisas e bottons com mensagens revolucionárias. Na década de 90 levou semanas para que começassem a vender camisas de flanela e calça desbotada. Hoje é tudo muito mais rápido, as empresas já contratam pessoas para irem a boates e festas justamente para prever qual será a próxima modinha da contracultura e já enchem as prateleiras com a antimoda do momento.

A contracultura, os hipsters e undergrounds acabaram se tornando a força-motriz do capitalismo. Toda vez que a subcultura se torna cultura de massa eles tem que se renovar e portanto novos produtos são criados num ciclo sem fim. A concorrência entre os consumidores pelo "autêntico" é o que faz o capitalismo girar.

Uma vez que tudo é produzido em massa, e muitas vezes para uma audiência de massa, encontrar e consumir coisas que apelam ao seu desejo de autenticidade é o que move esses itens, artistas e serviços a partir do fundo para o topo - onde podem ser consumidos em massa.

A competição pela singularidade


Um século atrás as pessoas eram definidas unicamente pelo seu trabalho e as poucas coisas que eles possuíam era produtos feitos à mão, cada produto artesanal tinha uma singularidade. Hoje todos são consumidores de produtos que são feitos em massa, portanto tem que escolher mercadorias que estão disponíveis para todos. É nessa escolha de produtos que as pessoas tentam definir sua personalidade, o quanto tem "bom gosto", o quão irônico ou obscuro são suas escolhas, etc.

Todos que vivem acima da linha da pobreza, mas não são ricos, não tem escolha a não ser trabalhar para sobreviver. Você tem um emprego que lhe paga o suficiente para subexistência (comida e moradia) e não é necessário mais uma competição pela sobrevivência, você simplesmente troca o fruto de seu trabalho por dinheiro, e com sorte sobra alguns trocados nessa equação, é com o que sobra que você poderá comprar os itens que "definem" sua personalidade marcante e singular.

Como disse Christian Lander, autor de Stuff White People Like, estamos sempre competindo entre nosso iguais por status, seja pelo "melhor gosto" em músicas e filmes ou por possuir o vestuário mais autêntico.

Ter uma opinião discordante sobre sobre filmes, músicas ou roupas é o caminho que a classe média tem de provar sua singularidade. Eles não podem consumir o que os ricos consomem, portanto eles tentam obter o status entre seus iguais, através da diferença.

Hipsters, os agentes de reciclagem

Hipsters são o resultado direto deste ciclo de consumo autêntico, obscuro, irônico e inteligente. O que é irônico, no sentido de que o próprio ato de tentar ir contra a cultura é o que cria um novo mercado "diferenciado" que mais tarde se tornará consumo de massa.

Se você espera tempo suficiente verá que a moda dominante de hoje, em breve cairá no esquecimento. Quando isso acontece, as pessoas que buscam pelo autêntico se apropriam da antiga moda. Não é um busca pelo valor das coisas em si, mas pelo valor da atitude de ser diferente. Uma vez que pessoas suficientes aderem a "nova moda antiga", ela volta à moda e a busca começa novamente.

Mas não se preocupe com isso, a competição é inerente ao ser humano, se fosse na época das cavernas estaríamos competindo por comida, hoje a classe média compete por status e os ricos competem por patrimônio. A competição sempre existe em todos os níveis.

O problema é quando você se obriga a trabalhar num subemprego que odeia, apenas para comprar itens que teoricamente te tornariam uma pessoa autêntica, só para mostrar aos outros como você é um floquinho de neve único e especial. Mas no final das contas você sabe que nada disso tem valor real.

Links:
Audio of a presentation given by Potter and Heath
Stuff White People Like
Great Interview with Christian Lander
White Whines
Look at this F**king Hipster

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 Texto Original: http://youarenotsosmart.com/2010/04/12/selling-out/